Um pacote de medida não nasce de uma ideia. Ele nasce de uma tradição de pesquisa que já formulou o problema, já propôs soluções e já registrou os seus próprios limites. Esta página existe para dizer qual é essa tradição, o que dela veio pronto, e o que restava por fazer.
Ela também serve a um propósito menos elevado e igualmente necessário: separar, para o leitor apressado e para o parecerista atento, o que este pacote contribui do que ele apenas embala.
A linhagem brasileira
A ideia de ordenar ocupações por posição social não chega ao Brasil com o índice internacional. Ela é anterior. Nelson do Valle Silva derivou do Censo de 1970 a primeira escala socioeconômica nacional das ocupações brasileiras, em Posição social das ocupações (IBGE, 1974) — construída no Brasil pelo mesmo princípio de Duncan, cujo índice de 1961 o texto discute em detalhe e cita, e aferida contra as escalas de Blishen e Bogue. Os estratos ocupacionais de Pastore e Valle Silva circulam na pesquisa brasileira até hoje.
A dívida não corre só num sentido. Quando Ganzeboom, De Graaf e Treiman construíram o ISEI, dezoito anos depois, foi a escala de Valle Silva que serviu de termo de comparação brasileiro para aferir o índice internacional — ela está na bibliografia deles. E o dado brasileiro que alimentou aquela estimação foi a PNAD de 1973 e a de 1982.
Sobre essa base construiu-se uma sociologia da estratificação brasileira com instrumento próprio: Carlos Hasenbalg e Valle Silva sobre estrutura social e desigualdade racial; Carlos Antônio Costa Ribeiro sobre estrutura de classes e mobilidade; e Flávio Carvalhaes, cuja avaliação por classes latentes do esquema EGP no caso brasileiro é a advertência mais direta que este pacote teve de incorporar.
Este pacote não é uma alternativa a essa linhagem. É um instrumento construído dentro dela, para uma fonte de dados que ela ainda não tinha alcançado.
Silva, N. V. (1974). Posição social das ocupações. Rio de Janeiro: IBGE.
Carvalhaes, F. (2015). A tipologia ocupacional Erikson-Goldthorpe-Portocarero (EGP): uma avaliação analítica e empírica. Sociedade e Estado, 30(3), 673–703. https://doi.org/10.1590/S0102-69922015.00030005
O que já estava resolvido, e que aqui é reimplementação
A tradução da ISCO em ISEI, prestígio e EGP não é contribuição deste pacote. Nem é de uma autoria só: o ISEI é de Ganzeboom, De Graaf e Treiman (1992); a escala de prestígio é de Treiman (1977); o esquema de classes é de Erikson, Goldthorpe e Portocarero (1979). O que Ganzeboom e Treiman (1996) fizeram foi mapear as três sobre a ISCO-88, em sintaxes SPSS que o pacote lê, converte por script e redistribui com atribuição.
Existem, além disso, outros pacotes de R que fazem essa mesma
tradução: DIGCLASS
(Cimentada), ISCO08ConveRsions,
isco88conversion (Parker), occupar
(Ferrari) e iscoCrosswalks,
este último entre a ISCO e a classificação norte-americana.
A postura do ocupacoesBR diante disso é não competir e
sim conferir: a implementação do EGP é comparada com a
do DIGCLASS nas oito células da grade de posição no emprego
e supervisão, e as duas concordam integralmente. A prova está em Robustez, §3. Duas pessoas leram a mesma
sintaxe separadamente e chegaram à mesma tabela; é isso, e não a
originalidade, que sustenta essa parte do pacote.
Uma ausência vale registro: o occupationcross
cobre os classificadores nacionais do México, da Argentina e dos Estados
Unidos, e não cobre a CBO brasileira. Nenhum dos
pacotes acima cobre.
O ISEI-BR não é o primeiro, e o precedente importa
Reestimar o índice socioeconômico em dado nacional, em vez de importar os escores, tem precedente recente e próximo. Sofia Jaime e Harry Ganzeboom — um dos três autores do procedimento de 1992 — publicaram em 2025 o ARSEI, um índice argentino construído pelo mesmo escalonamento ótimo de efeito indireto, aplicado tanto ao classificador nacional quanto à ISCO-08.
E o resultado deles vai na direção contrária ao daqui: encontraram o índice internacional superando as duas versões locais, e leram isso como apoio à tese de Treiman de que a hierarquia ocupacional é aproximadamente invariante entre sociedades.
Essa divergência é declarada, e não escondida. Ela não se resolve por autoridade, e boa parte dela pode ser de desenho: o critério externo é outro (reprodução intergeracional numa pesquisa domiciliar, lá; patrimônio declarado numa população de candidaturas, aqui), a população de estimação é outra, o ano é outro. O que o pacote afirma é estreito e verificável — a régua estimada leva vantagem contra este critério, nesta população —, e é por isso que ela é oferecida ao lado das importadas e nunca no lugar delas.
Jaime, S. e Ganzeboom, H. B. G. (2025). A Socio-Economic Index for Occupational Stratification in Argentina: With Insights for Comparative Research. Social Indicators Research, 178(2), 875–904. https://doi.org/10.1007/s11205-025-03582-1
A ocupação do candidato já havia sido classificada — de outro modo
No estudo do recrutamento político brasileiro, Adriano Codato, Luiz Domingos Costa e Lucas Massimo propuseram em 2014 uma classificação das ocupações prévias à entrada na política, testada sobre cerca de oito mil candidaturas a deputado federal em 2006 e 2010.
O critério deles é declaradamente analítico, e não sociográfico: classificam as ocupações pela flexibilidade da carreira, pelo status na comunidade e pela afinidade prévia com o mundo político. É um esquema desenhado para a pergunta do recrutamento, e deliberadamente não uma ponte para padrão internacional.
Os dois caminhos respondem a perguntas diferentes e não se substituem. Quem pergunta quais ocupações predispõem à política precisa de um critério como o deles. Quem pergunta como o perfil de classe das candidaturas brasileiras se compara ao de outros países, ou à população brasileira, precisa de uma medida padronizada — e é essa que não existia.
Codato, A., Costa, L. D. e Massimo, L. (2014). Classificando ocupações prévias à entrada na política: uma discussão metodológica e um teste empírico. Opinião Pública, 20(3), 346–362. https://doi.org/10.1590/1807-01912014203346
A advertência do campo, e por que o pacote a desobedece em parte
A revisão de referência sobre classificações ocupacionais recomenda que se prefiram sempre medidas com padrão documentado e acordado, e que ninguém desenvolva medida própria sem justificativa forte.
Este pacote faz as duas coisas de que essa recomendação desconfia: constrói um dicionário autoral e distribui uma régua reestimada. A justificativa é estreita e vale a pena enunciá-la sem retórica.
O dicionário é inevitável. O Tribunal Superior Eleitoral não publica
correspondência entre o seu cadastro de ocupações e classificação
alguma. Onde não há tábua oficial, a alternativa a um dicionário próprio
não é uma medida padronizada: é nenhuma medida, ou pior, a armadilha do
primeiro dígito. O que o pacote deve, em troca, é tornar cada decisão
auditável — daí a coluna qualidade, os rótulos em
crosswalk_tse(), e a validação contra critério externo.
A régua é opcional. O ISEI-BR nunca substitui o importado: as duas versões ancoradas e a estimada convivem, e a vinheta de validação mostra as três contra o mesmo critério. Quem discordar da estimação continua com o pacote inteiro à disposição.
Connelly, R., Gayle, V. e Lambert, P. S. (2016). A Review of Occupation-Based Social Classifications for Social Survey Research. Methodological Innovations, 9. https://doi.org/10.1177/2059799116638003
O que, então, é contribuição
Feita a subtração, resta pouco — e o pouco é o que importa:
| Camada | Origem |
|---|---|
| ISCO → ISEI, SIOPS, EGP | Ganzeboom e Treiman (ISMF). Reimplementado e conferido. |
| CBO ↔︎ ISCO | Tábua oficial do Ministério do Trabalho. Redistribuída. |
| COD ↔︎ ISCO-08 | Estrutura do IBGE. Redistribuída. |
| TSE → ISCO-88 | Autoral. Não há documento oficial que a confirme. |
| Vigência dos códigos do TSE |
Autoral. A quebra de cadastro de 2002 e o argumento
ano. |
| ISEI-BR | Estimado aqui, pelo procedimento de 1992, sobre a PNAD Contínua. |
| Esquema de classes e estratos eleitoral | Autoral. |
Duas dessas seis linhas são as que exigem citação do pacote, e são as duas que não podem ser conferidas contra documento externo nenhum. É essa a razão de tudo o mais nesta documentação: onde não há autoridade externa a invocar, resta mostrar o trabalho.
Veja Publicações e como citar para as referências completas, e Robustez para as provas.
